Tecnologia vira linguagem na música pop brasileira com inteligência artificial
Tecnologia vira linguagem na música pop brasileira com inteligência artificial

A relação entre música e tecnologia sempre foi marcada por tensões. Ao longo da história, inovações como o piano industrializado, o disco fonográfico, os sintetizadores, o trabalho de DJs e o uso do auto-tune enfrentaram resistência antes de serem assimiladas como parte da linguagem musical. Em 2026, a inteligência artificial passa a ocupar posição semelhante nesse debate, à medida que começa a ser integrada de forma mais estruturada aos processos criativos do setor cultural.

Nesse contexto, surge Scorpio Era, primeiro álbum brasileiro com 13 faixas, desenvolvido ao longo de 14 meses, que utiliza a inteligência artificial como ferramenta de apoio à produção, mantendo a autoria humana como elemento central. O projeto foi lançado em 1º de janeiro de 2026 e está disponível em todas as plataformas de streaming, inserindo-se em discussões mais amplas sobre inovação tecnológica e criação artística no Brasil.

Experiência humana como base do processo criativo



O projeto foi idealizado por Bruno Mendonça de Menezes, 42 anos, natural de Petrópolis (RJ), residente na cidade do Rio de Janeiro e CEO da Mendonça X, empresa especializada em produção artística, marketing digital e audiovisual. O ponto de partida do álbum foram textos e relatos baseados em experiências pessoais do autor, desenvolvidos ao longo de anos e transformados em letras e conceitos musicais que abordam temas como identidade, transformação, superação e reconstrução.

A IA foi incorporada em uma etapa posterior do processo, atuando no refinamento da linguagem, na organização estrutural das composições e na experimentação sonora, sem substituir a criação humana. “A IA foi utilizada como instrumento de apoio ao processo criativo, não como fonte de autoria”, afirmou o autor.

Clone artístico e identidade digital

Um dos elementos centrais do projeto é a criação de um intérprete artístico chamado Mënez gerado a partir de um clone digital do próprio autor. Essa identidade funciona como uma extensão narrativa e simbólica do criador, permitindo a exploração de novas formas de presença artística no ambiente digital. O uso do clone não substitui o artista, mas amplia suas possibilidades de expressão, dialogando com debates atuais sobre identidade, autoria e representação na era da tecnologia.

Estrutura narrativa e desdobramentos do projeto

Scorpio Era é um álbum desenvolvido ao longo de 14 meses e estruturado como uma obra contínua, em que cada faixa representa um estágio emocional dentro da narrativa proposta. Como desdobramento futuro, o autor projeta a expansão do universo do álbum para um espetáculo teatral, incorporando introduções musicais, monólogos, dança, orquestra e recursos de interpretação cênica, cuja realização deverá envolver parcerias criativas e institucionais voltadas à estruturação e viabilização do projeto.

Estética musical e experimentação audiovisual

Do ponto de vista sonoro, o projeto se insere em uma estética pop latino contemporânea, combinando elementos de funk, gypsy e bases eletrônicas. No campo audiovisual, parte do projeto já foi apresentada ao público por meio de videoclipes como “Vira Página” e “I’m Scorpio”, desenvolvidos com apoio integral de IA, sob direção artística humana. As produções lançadas ultrapassaram 2 milhões de visualizações somadas em redes sociais, ampliando o alcance do projeto para além das plataformas tradicionais de música.

Referências internacionais e consolidação da tendência

O uso da inteligência artificial na música já apresenta resultados consolidados fora do Brasil. Em 2025, canções e artistas virtuais criados total ou parcialmente com apoio de algoritmos passaram a ocupar posições de destaque em rankings internacionais, desafiando noções tradicionais de autoria e performance.

Um dos casos mais citados é o do projeto musical de country Breaking Rust, que estreou no top 10 do Billboard Emerging Artists e alcançou o primeiro lugar no Country Digital Song Sales Chart. O sucesso demonstrou que a IA não está restrita a gêneros experimentais ou de nicho, sendo capaz de dialogar com estilos populares e alcançar apelo comercial significativo.

Situação semelhante ocorreu com a canção “Sina de Ofélia”, que alcançou posições de destaque em rankings de músicas virais no Brasil.

Outro fenômeno observado é a ascensão dos chamados “artistas virtuais” ou AI Idols. A persona digital Xania Monet, criada pela poetisa Talisha Jones, assinou contrato multimilionário com a gravadora Hallwood Media e emplacou músicas em paradas de Gospel e R&B, reforçando a viabilidade artística e mercadológica de projetos baseados em identidades digitais.

O Brasil no contexto da transformação global

É nesse cenário internacional que Scorpio Era se insere, demonstrando que também no Brasil é possível desenvolver um álbum conceitual utilizando IA de forma ética, autoral e estruturada. O projeto dialoga com movimentos globais já em curso, mas preserva uma identidade cultural própria, ancorada em experiências humanas e referências musicais locais.

Um retrato do momento cultural

Mais do que um experimento técnico, Scorpio Era reflete um momento de transição da indústria cultural, marcado pela incorporação gradual da inteligência artificial aos processos criativos.

Na avaliação do autor, o álbum Scorpio Era representa apenas a etapa inicial de um projeto mais abrangente. A proposta envolve o desenvolvimento contínuo de um intérprete gerado a partir de um clone digital do próprio criador, concebido como extensão artística e ferramenta de pesquisa criativa, além da expansão das atividades da Mendonça X na produção de videoclipes híbridos que combinam inteligência artificial e direção humana, na criação de conteúdos para redes sociais com clones autorais e no apoio à produção de demos musicais voltadas à construção e apresentação de identidade artística.

“A inteligência artificial não substitui a criação humana; ela amplia as possibilidades de linguagem quando existe autoria, intenção e responsabilidade no processo criativo”, afirma Bruno Mendonça.

O projeto se insere em um momento de transição da indústria criativa, em que novas tecnologias passam a ser incorporadas de forma progressiva aos processos autorais, ampliando o debate sobre o futuro da música e das linguagens culturais.