Pesquisas internacionais recentes reforçam o alerta de especialistas sobre os impactos do uso excessivo de telas, especialmente redes sociais, na saúde mental de crianças e adolescentes. Estudos publicados nos periódicos Pediatrics Open Science e JAMA Network Open indicam associações entre o uso intensivo de mídias digitais, aumento de sintomas de desatenção e prejuízos ao bem-estar emocional. Diante desse cenário, a Rede Total Care reforça a importância da adoção de hábitos digitais mais saudáveis no ambiente familiar.
Um dos estudos acompanhou mais de oito mil crianças ao longo de quatro anos, dentro da coorte norte-americana ABCD Study. A pesquisa analisou diferentes tipos de consumo de mídia digital e sua relação com sintomas de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Os resultados apontaram que o uso mais intenso de redes sociais foi o único padrão consistentemente associado ao aumento de sintomas de desatenção ao longo do tempo, diferentemente do consumo de televisão, vídeos ou videogames.
Mesmo após ajustes para fatores como predisposição genética, condições socioeconômicas e uso de medicação, a associação permaneceu significativa. Segundo os pesquisadores, determinadas formas de interação digital exigem estímulos constantes, o que pode interferir na capacidade da criança de sustentar a atenção em atividades prolongadas.
Já o estudo publicado no JAMA Network Open avaliou, de forma experimental, os efeitos da redução do tempo de tela. A pesquisa acompanhou 89 famílias durante duas semanas, período em que o uso recreativo de telas foi limitado a até três horas semanais. A intervenção resultou em melhora significativa do bem-estar psicológico das crianças, além da redução de problemas emocionais e comportamentais.
Para a coordenadora médica do serviço de pediatria do Hospital Mario Lioni, a pediatra Carolina Schuab, o excesso de estímulos digitais impacta diretamente a atenção sustentada em idade escolar. "O uso excessivo de telas, especialmente quando envolve conteúdos rápidos e altamente estimulantes, pode reduzir a capacidade de manter o foco em tarefas que exigem continuidade, como leitura e atividades escolares. O cérebro passa a se habituar a recompensas imediatas, o que dificulta a concentração em ritmos mais lentos e que demandam esforço cognitivo", explica.
Segundo a especialista, os dados reforçam a necessidade de orientação às famílias e de políticas voltadas ao uso consciente da tecnologia. Entre as recomendações estão o monitoramento do tempo de tela, o incentivo a atividades físicas e sociais e a criação de rotinas com períodos livres de dispositivos digitais. "O uso moderado e orientado das redes sociais pode trazer benefícios, como fortalecimento de vínculos, ampliação do repertório cultural e sentimento de pertencimento. No entanto, esses ganhos dependem do equilíbrio entre o mundo digital e a vida offline", ressalta.
A pediatra explica que o uso saudável de telas é aquele que não interfere no sono, no rendimento escolar, no humor ou na convivência familiar. Sinais de uso prejudicial incluem perda de controle, irritabilidade ao ficar desconectado, queda no desempenho acadêmico e substituição de atividades essenciais ao desenvolvimento, como brincar, dormir e conviver presencialmente.
Sobre o tempo de exposição recomendado, Carolina Schuab orienta que crianças menores de 18 meses evitem totalmente o uso de telas, com exceção de videochamadas. Entre 18 e 24 meses, caso haja uso, ele deve ser sempre acompanhado por um adulto. De 2 a 5 anos, o ideal é limitar a até uma hora por dia, com conteúdo adequado e supervisão. Para crianças maiores e adolescentes, o principal critério é que o uso da tecnologia não comprometa o sono, a saúde mental, a atividade física e as relações familiares.
"A adoção de rotinas equilibradas e a atuação conjunta entre famílias, escolas e profissionais de saúde são fundamentais para que a tecnologia seja utilizada de forma consciente, com propósito e sem prejuízos ao desenvolvimento infantil e adolescente", alerta Schuab.

























