Quando um sobrenome pode mudar a política brasileira
Quando um sobrenome pode mudar a política brasileira

Poucas perguntas parecem tão simples — e, ao mesmo tempo, tão desafiadoras — quanto a que orienta o novo livro da jornalista, advogada e escritora Ana Paula Rocha: o que acontece quando um movimento político deixa de depender exclusivamente de seu fundador?

É a partir dessa questão que nasce O Sobrenome — Bolsonaro depois de Bolsonaro, obra que será lançada em 17 de agosto, na Livraria Drummond, no Conjunto Nacional, em São Paulo. Longe de se apresentar como uma biografia de Jair Bolsonaro ou como um relato cronológico de sua trajetória política, o livro propõe uma investigação sobre um fenômeno ainda em desenvolvimento: a possibilidade de o Brasil estar assistindo ao surgimento de sua primeira dinastia política de alcance nacional desde a redemocratização.

Resultado de aproximadamente cinco meses de pesquisa, a obra reúne referências da filosofia, da sociologia e da ciência política para analisar um aspecto que, segundo a autora, recebeu pouca atenção dos estudiosos da política brasileira: a dificuldade histórica do país em produzir sucessores políticos capazes de preservar, por gerações, o capital simbólico de uma liderança nacional.

A pesquisa parte de uma constatação histórica. Embora o Brasil tenha produzido presidentes populares e líderes de enorme influência, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, nenhum deles consolidou uma estrutura sucessória comparável às dinastias políticas observadas em outras democracias. Famílias influentes sempre existiram na política brasileira, mas sua força esteve, em regra, associada a estados, regiões ou grupos partidários específicos, sem alcançar uma identidade política nacional.

Foi justamente essa tradição que levou Ana Paula Rocha a formular a hipótese central do livro: o fenômeno político associado ao sobrenome Bolsonaro pode representar uma ruptura nesse padrão histórico.

Segundo a autora, a percepção surgiu no fim de 2025, quando Jair Bolsonaro anunciou publicamente o senador Flávio Bolsonaro como seu candidato à Presidência da República. Em poucas semanas, Flávio apareceu em empate técnico com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas intenções de voto para um eventual segundo turno, contrariando a expectativa de parte dos analistas políticos.

Mais do que o desempenho nas pesquisas, outro aspecto despertou a atenção da autora: a rapidez da transferência de capital político entre pai e filho e a coexistência de diferentes perfis dentro da própria família. Enquanto Jair Bolsonaro consolidou uma liderança marcada pelo confronto direto, outros integrantes do grupo político, como Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, passaram a ocupar espaços distintos perante parcelas do eleitorado, cada um com características próprias.

Para Ana Paula Rocha, esse processo pode representar uma mudança estrutural na forma como o poder político é transmitido no Brasil. Em vez de depender exclusivamente da figura do fundador, um movimento passaria a desenvolver mecanismos de continuidade capazes de sobreviver ao tempo e às circunstâncias.

Ao longo de 24 capítulos, o livro analisa temas como liderança, sucessão política, autoridade carismática, identidade coletiva, permanência histórica e construção de símbolos políticos. A obra dialoga com autores clássicos como Edmund Burke — principal referência teórica da pesquisa —, Alexis de Tocqueville, Max Weber e Russell Kirk, além de estabelecer comparações com famílias políticas que marcaram diferentes países, como os Kennedy e os Bush, nos Estados Unidos, os Gandhi, na Índia, e os Bhutto, no Paquistão.

A autora ressalta que o objetivo não é oferecer respostas definitivas nem formular previsões eleitorais. A proposta é investigar um fenômeno contemporâneo ainda em formação e levantar uma questão que, em sua avaliação, ultrapassa o debate partidário.

"Este não é um livro sobre a trajetória pessoal de Jair Bolsonaro. É um livro sobre a possibilidade de um movimento político sobreviver ao seu fundador e sobre o significado histórico dessa hipótese para a democracia brasileira", resume.

O prefácio é assinado pelo deputado federal, ator e apresentador Mário Frias. No texto, ele observa que compreender acontecimentos enquanto ainda estão em curso constitui um dos maiores desafios da análise política e afirma que a obra procura oferecer elementos para uma reflexão sobre transformações que poderão influenciar a compreensão do Brasil contemporâneo.

Com linguagem acessível ao público não especializado, O Sobrenome — Bolsonaro depois de Bolsonaro procura aproximar conceitos clássicos da filosofia política do debate público atual. Mais do que explicar uma eleição ou um personagem, a obra propõe uma reflexão sobre permanência, legado, sucessão e identidade política — temas que, segundo a autora, permanecerão relevantes independentemente dos desdobramentos da conjuntura brasileira.

Onde comprar

O Sobrenome — Bolsonaro depois de Bolsonaro está disponível no site oficial da editora: https://www.literissima.com.br/product-page/o-sobrenome-bolsonaro-depois-de-bolsonaro?selectionIds=4

Sobre a autora

Ana Paula Rocha é jornalista, advogada, escritora e estrategista política, com mais de três décadas de atuação na vida pública brasileira. Atuou como comentarista política em veículos como Jovem Pan e Revista Oeste e atualmente é âncora do programa Rota BR, da TVD News. Foi conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB-MG) e é autora de Voz, livro de prosa poética. Em O Sobrenome — Bolsonaro depois de Bolsonaro, dedica-se a investigar um dos fenômenos mais relevantes da política contemporânea brasileira sob a perspectiva da filosofia política, da história e da ciência política.