Restaurar um hectare de vegetação nativa no Brasil exige desembolsos concentrados nos primeiros anos e oferece receitas que chegam ao longo de décadas, descompasso que define quem consegue financiar esse tipo de projeto. A Future Climate Group, empresa que desenvolve e gerencia projetos de carbono baseados na natureza, detalha a lógica econômica por trás de um portfólio de restauração de 12 mil hectares, avaliado pela companhia em R$ 300 milhões a valor presente, com projeção de mais de 5 milhões de créditos de carbono em cinco anos, de acordo com a empresa.
Para Guilherme Prado, diretor de projetos da Future Climate, a principal dificuldade do segmento não está na técnica de plantio, mas no desenho financeiro. "O hectare restaurado é pago quase inteiro antes de a primeira tonelada de carbono ser verificada. Quem observa apenas o preço do crédito no mercado à vista não enxerga que, por trás dele, existem anos de desembolso sem receita correspondente", afirma.
Onde o dinheiro é aplicado
Um estudo premiado em 2025 pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), dedicado ao Cerrado, estimou o custo direto da restauração ecológica entre R$ 23 mil e R$ 29 mil por hectare. A conta inclui coleta de sementes e produção de mudas, preparo do solo, plantio, manutenção por três anos e monitoramento. Pela composição apresentada no trabalho, a mão de obra responde por 30%, as mudas e sua logística por 25%, e o plantio com manejo silvicultural por 20%.
Prado explica que a composição adotada pela empresa acrescenta outras camadas a esse cálculo. Antes da primeira muda chegar ao campo, é preciso garantir o acesso à terra, por aquisição ou parceria fundiária. Depois do plantio, entram o monitoramento contínuo das áreas e a verificação dos créditos por auditoria independente, etapa obrigatória para que as remoções possam ser comercializadas.
Por que a receita demora
Em projetos de aflorestamento, reflorestamento e revegetação, conhecidos pela sigla em inglês ARR, a floresta jovem retira pouco carbono da atmosfera nos primeiros anos. A absorção acelera conforme as árvores ganham porte e biomassa, e os créditos só são emitidos depois que as remoções efetivamente medidas passam pela verificação. No cenário de referência do estudo do SFB, cada hectare restaurado geraria cerca de 336 toneladas de CO₂ equivalente em 30 anos, já descontada uma reserva de 20% para riscos de permanência, com retorno simples do investimento entre 9,5 e 12 anos.
O mesmo trabalho identifica a permanência como o principal risco biofísico desses projetos, por causa da recorrência de incêndios e de eventos climáticos extremos. Para mitigar a exposição, os autores sugerem combinar reservas de créditos iguais ou superiores a 20% com manejo preventivo do fogo, seguros paramétricos e planos de contingência, medidas que também pesam no orçamento.
"Em restauração, o custo é antecipado e a receita é diferida. Os três primeiros anos concentram plantio, replantio e controle de espécies invasoras, enquanto o volume relevante de remoções aparece mais tarde, à medida que a floresta cresce. Por isso, o projeto precisa de um capital que aceite esperar", diz o diretor de projetos.
A estrutura de capital compatível
Segundo Prado, nenhuma fonte isolada cobre todas as fases do ciclo. Na implantação, quando o risco é mais alto, o projeto depende de capital paciente, disposto a aguardar o amadurecimento dos ativos. Em paralelo, contratos de pré-compra e acordos de offtake plurianuais, nos quais compradores se comprometem a adquirir volumes futuros de créditos, dão previsibilidade ao caixa. A dívida sustentável tende a entrar em uma etapa posterior, quando o fluxo de remoções já pode ser projetado com maior segurança.
O próprio estudo do SFB aponta na mesma direção ao recomendar instrumentos que antecipem fluxos de caixa, como pré-pagamentos, contratos de longo prazo e arranjos de financiamento misto. É essa combinação que permite expressar um portfólio em valor presente: as receitas esperadas ao longo do período de creditação são trazidas para a data atual e confrontadas com os custos de implantação, manutenção e verificação, além dos riscos operacionais do projeto. Quanto mais distante estiver uma receita, menor o seu peso nesse cálculo, o que explica por que contratos que antecipam vendas elevam o valor presente de uma carteira.
Demanda paga mais por remoção
O mercado internacional tem diferenciado créditos de remoção conforme a qualidade. Dados da plataforma de avaliação Sylvera indicam que projetos de ARR com classificação mais alta registraram preço médio acima de US$ 26 por crédito no fim de 2025, ante cerca de US$ 14 para equivalentes com notas inferiores. O mesmo levantamento contabilizou US$ 12,3 bilhões em acordos de offtake anunciados em 2025, contra US$ 3,95 bilhões no ano anterior.
No Brasil, a demanda por área restaurada também tem metas oficiais. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg 2025-2028) estabelece a recuperação de 12 milhões de hectares até 2030. Já a Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), criou o Certificado de Redução ou Remoção Verificada de Emissões, ativo que pode representar remoções geradas por projetos de restauração.
De acordo com Prado, a escassez de oferta de ARR com integridade comprovada decorre justamente do tempo e do capital que esses projetos exigem. "Tornar transparente a composição do custo permite que compradores e investidores comparem iniciativas por critérios de qualidade, permanência e rastreabilidade, e não apenas pelo valor da tonelada", conclui o executivo.
Para mais informações, basta acessar: https://futureclimate.com/




















