O Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência em 2022, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da dimensão desse público, o acesso a atividades culturais ainda esbarra em barreiras de comunicação e informação. A ausência de interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de audiodescrição, por exemplo, pode impedir que pessoas surdas, cegas ou com baixa visão acompanhem plenamente espetáculos, exposições, shows e outras manifestações artísticas. No Dia Nacional da Cultura, celebrado em 5 de novembro, a All DUB Estúdio chama a atenção para a necessidade de incorporar a acessibilidade ao planejamento de projetos culturais.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), em seu artigo 42, assegura o direito à cultura em igualdade de oportunidades, incluindo o acesso a bens culturais em formatos acessíveis, a atividades e a espaços culturais. Na prática, porém, a aplicação desse direito depende de iniciativas que considerem as diferentes necessidades do público desde a concepção dos eventos.
Entre os recursos disponíveis estão a interpretação em Libras, que permite a pessoas surdas usuárias dessa língua acompanhar conteúdos e apresentações, e a audiodescrição, que transforma informações visuais relevantes, como expressões, movimentos, cenários e elementos de uma obra, em descrições verbais.
Para Ana Motta, da All DUB Estúdio, a acessibilidade precisa ser considerada nas decisões iniciais de cada projeto, incluindo orçamento, escolha do espaço e organização da programação.
"A acessibilidade precisa estar no planejamento desde o início, junto com a escolha do espaço, a programação e o orçamento. Quando é tratada como um adendo, corre-se o risco de oferecer um recurso que existe, mas não permite ao público acompanhar plenamente a experiência. É preciso pensar em quem vai participar antes de definir como o evento será realizado", afirma.
Acessibilidade como oportunidade para o setor cultural
Além de garantir direitos, a inclusão de recursos de acessibilidade pode ampliar o alcance das iniciativas culturais e abrir novas oportunidades de negócio. Pessoas com deficiência são potenciais frequentadoras de cinemas, teatros, museus, festivais e shows, muitas vezes acompanhadas de familiares e amigos. Essa participação pode movimentar diferentes segmentos da economia, como venda de ingressos, alimentação, transporte e serviços relacionados aos eventos.
Embora não haja uma estimativa específica do impacto financeiro da acessibilidade sobre o faturamento do setor, o contingente identificado pelo IBGE evidencia a relevância de considerar esse público na concepção de produtos e experiências culturais.
"Pessoas com deficiência têm interesse em música, teatro, cinema, exposições e festivais. Também escolhem aonde ir, com quem compartilhar essas experiências e onde consumir. Quando um evento oferece acessibilidade e informa isso com clareza, cria condições para que esse público participe da vida cultural e da economia que ela movimenta", destaca Ana.
Planejamento deve considerar toda a experiência do público
A oferta de recursos acessíveis precisa contemplar diferentes etapas da experiência, desde a divulgação da programação e a compra de ingressos até a orientação das equipes e o acesso aos serviços no local. A comunicação sobre os recursos disponíveis é especialmente importante para que as pessoas possam decidir como e onde participar.
Também é necessário considerar que as necessidades não são iguais. Nem toda pessoa surda utiliza Libras, o que torna relevante avaliar alternativas complementares, como legendagem. Para pessoas cegas ou com baixa visão, a audiodescrição deve estar associada a condições adequadas de circulação, orientação e acesso às informações.
Na avaliação da All DUB Estúdio, o diálogo com pessoas com deficiência é fundamental para identificar barreiras e garantir que as soluções adotadas atendam às necessidades reais dos participantes.
"O direito à cultura se realiza quando a pessoa consegue escolher sua programação, acessar as informações e viver aquela experiência com autonomia. Esse deve ser o compromisso de quem produz cultura", conclui Ana.























