Provavelmente isso ocorre em todos os países em datas similares. Mas na África do Sul, a disseminação de um meme que mistura de forma grotesca racismo e Black Friday é quase tão tradicional quanto a data de compras com descontos. Todos os anos ele aparece. O sul-africano pode esperar por ele até com mais certeza do que por uma oferta daquele smartphone que gostaria de comprar.

É um meme que talvez tenha sido uma tentativa de ser humorado. Ele afirma que “Sexta-feira Negra” tem origens na venda de escravos negros, que foram levados para a América após o Dia de Ação de Graças. Ou seja, é uma mentira sem base histórica e um horror de lógica que leva a conclusões grosseiras sobre a data, além de não ajudar muito a conscientização das pessoas sobre o passado inglório do comércio movido por escravização de povos oprimidos.

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“Foi no dia seguinte ao Dia de Ação de Graças quando os traficantes de escravos venderam negros com desconto para ajudar os proprietários das plantações com mais mão-de-obra para o próximo inverno”, costumam dizer os textos que acompanham as imagens.

E todo ano ele aparece. Não se sabe ao certo quando ele surgiu e os sul-africanos não são os únicos que caíram na farsa histórica. Personalidades como o jogador de basquete do New York Knicks, J. R. Smith e o cantor Toni Braxton, divulgaram isso em 2014.

Origem obscura
O termo ajude o meme, já que Black Friday é literalmente sexta-feira negra em inglês. A palavra “black” também ganhou significado de algo ruim e tenebroso ao longo da história da humanidade. A falta de uma origem exata desse dia da festa das compras é outro fator que contribui para a confusão.

A Black Friday, como data comercial, não tem um ponto exato de criação. No final do século 19, durante o mandato de Abraham Lincoln como presidente dos EUA, houve a criação de algo que seria o Dia de Ação de Graças americano. Esse feriado para agradecer as coisas boas do ano é o único ponto de consenso no surgimento da Black Friday. Seguiu-se a isso que o final de novembro virou o início das festas de final de ano e uma época boa para o comércio.

A partir daí, uma série de eventos, criações dos varejistas (como desfile do Papai Noel da Macy’s) e cultura popular culminaram na Black Friday que conhecemos hoje. Nenhum deles tem relação com a escravidão imperialista que ocorreu na colonização das Américas. O site caçador de boatos na internet Snopes explica essa confusão do meme.

O meme também acaba sendo fruto do passado da África do Sul misturado com a modernidade das redes sociais. O país é uma terra dos povos negros que foi invadida por brancos colonizadores europeus e teve seus habitantes escravizados. A internet deu liberdade para qualquer pessoa criar conteúdo e distribuir, o que é muito bom em um país que teve sua mídia dominada pela elite branca e só recentemente conseguiu se diversificar um pouco mais.

Com tudo isso, um site local destacou que a Black Friday sul-africana rivaliza com a americana em interesse nas buscas da internet. E o meme pode ter contribuído para isso, fazendo a população procurar no Google o significado e a origem da Black Friday. Tanto que, no Google Trends, onde é possível ver estatísticas de acesso às buscas, o termo Black Friday sozinho fica com menos acesso do que ele combinado: Black Friday mais Slaves, em solicitações vindas da África do Sul.

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