A Alice, plano de saúde para empresas que tem por missão tornar o mundo mais saudável, iniciou uma transformação operacional baseada em inteligência artificial. A partir de maio de 2026, a companhia passa a usar IA para escrever código, enquanto amplia o papel dos engenheiros para funções mais estratégicas, ligadas ao desenho de sistemas, automação de processos e evolução da operação como um todo.
A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla para acelerar o desenvolvimento de produto, reduzir custos administrativos e aumentar produtividade sem expansão proporcional da estrutura. A expectativa é aproximar as despesas administrativas de 2% da receita no longo prazo, abaixo da média atual do setor brasileiro, entre 7,5% e 12%.
"Reconstruir o sistema de saúde é o problema mais complexo que existe. Ele se resolve com pessoas operando melhor, em um patamar elevado. Se resolve com engenheiros que dominam novas ferramentas, operando em outra velocidade e assumindo um papel cada vez mais estratégico dentro da empresa", afirma André Florence, cofundador e CEO da Alice.
A ferramenta escolhida para apoiar essa transformação é o Claude Code, solução de programação por inteligência artificial da Anthropic. Nesse modelo, engenheiros atuam como arquitetos e orquestradores: definem o que deve ser construído, revisam as entregas geradas por IA e respondem pelo sistema como um todo.
O crescimento já começou. A Alice está abrindo novas vagas com foco em agentic development e adaptando processos seletivos para priorizar engenheiros com casos comprovados de uso de IA.
Mudança cultural
A decisão faz parte de uma transformação mais ampla da companhia, que vem redesenhando sua operação a partir da inteligência artificial. Em abril de 2026, a Alice declarou o início de um novo ciclo estratégico, com o objetivo de ampliar o uso de IA em diferentes áreas da empresa e acelerar a capacidade de execução das equipes.
Como parte disso, foi criado um programa próprio de avaliação de proficiência em inteligência artificial, com critérios estruturados. A meta é que 100% do time de negócios atinja fluência em IA até agosto de 2026. Os colaboradores passaram a ter acesso ao Claude Cowork, agente da Anthropic que permite a qualquer profissional, técnico ou não, executar tarefas e construir soluções diretamente, acelerando a capacidade de execução de toda a operação e reduzindo a dependência de ciclos técnicos para tarefas do dia a dia.
Já para os engenheiros, o esperado é que, ao longo dos próximos anos, eles expandam sua atuação para a empresa como um todo, contribuindo cada vez mais em frentes como operações, finanças e RH, por exemplo, indo além da construção do produto.
"Quanto mais investimos em tecnologia, mais estruturado fica nosso sistema de saúde. Isso significa que conseguimos usar melhor os dados das pessoas para entender sua jornada, antecipar riscos e agir antes que o problema apareça", explica Florence. "No longo prazo, isso melhora desfechos e reduz custos assistenciais e administrativos, e é por isso que IA não é só uma decisão de engenharia. É uma decisão de modelo", acrescenta.
Do piloto para toda a engenharia
A padronização em Claude Code traz implicações técnicas importantes para o setor de saúde. Em um ambiente que lida com dados sensíveis, a Alice precisa garantir qualidade e segurança em todas as aplicações, inclusive nas desenvolvidas com apoio de IA. Nesse contexto, engenheiros passam a atuar de forma ainda mais estratégica na arquitetura dos sistemas, na identificação de falhas e na supervisão da confiabilidade das aplicações.
Antes de expandir o modelo para toda a engenharia, a Alice conduziu um piloto com uma squad de seis engenheiros operando integralmente com IA durante um mês. Os resultados incluíram redução de 40% no tempo mediano para resolução de bugs, aumento de 20% no volume de entregas por sprint e identificação proativa de cerca de quatro bugs por dia antes do reporte de usuários. Segundo a empresa, nenhum incidente em produção foi atribuído a código gerado por IA durante o período piloto.
Os aprendizados já estão sendo estruturados em agentes reutilizáveis, incluindo ferramentas internas voltadas para detecção e resolução automatizada de falhas, com o objetivo de escalar o modelo para toda a equipe.
"Eu uso a analogia do Neo em Matrix. Com ferramentas como o Claude Cowork, qualquer pessoa faz ‘upload de kung fu’, mas só o Neo vê o código. Ele enxerga a Matrix por trás da interface", ilustra Florence. "É isso que um engenheiro de verdade faz: ele vê o sistema, entende a complexidade, identifica onde vai quebrar antes de quebrar. Qualquer pessoa vai conseguir construir software. Mas só engenheiros conseguem ver a Matrix", completa.
Movimento internacional
O movimento acompanha uma transformação global no mercado de tecnologia. Segundo a Sequoia Capital, engenharia de software já responde por mais da metade do uso de ferramentas de IA entre diferentes profissões. O New York Times também documentou recentemente a mudança no papel dos engenheiros, que passam gradualmente de executores para arquitetos e supervisores de sistemas baseados em inteligência artificial.
A Alice projeta chegar a R$ 2 bilhões de ARR e 160 mil membros até o fim de 2027, sem expansão proporcional do time de negócios. A aposta da companhia é usar produtividade e automação como alavancas de crescimento, combinando inteligência artificial e uma engenharia cada vez mais integrada às decisões estratégicas da operação.
"Desde que fundamos a Alice, entendemos que reconstruir o sistema de saúde brasileiro exige repensar não apenas o modelo assistencial, mas a própria forma como operamos e construímos tecnologia. Esse é mais um importante passo que estamos dando nessa direção de tornar o mundo mais saudável", conclui o CEO.



















