O esperado início do corte da taxa básica de juros parece ainda não ter surtido efeito no bolso dos brasileiros. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o percentual de famílias com dívidas a vencer atingiu 80,4% em março, enquanto 29,6% apresentavam dívidas em atraso. Já o Mapa da Inadimplência, da Serasa, apontou que 81,7 milhões de pessoas estavam com contas em aberto em fevereiro. E levantou que bancos e cartão de crédito lideram entre os setores que concentram a maior parcela das dívidas (26,8%), seguidos por contas de serviços como água, luz e gás (21,4%), financeiras (20,3%) e serviços (11,6%).

Nesse cenário, que ganha complexidade com as mudanças que restringiram o acesso à antecipação do saque-aniversário e a persistência do conflito no Oriente Médio — o que tende a elevar os preços dos combustíveis e, consequentemente, impactar a inflação —, modalidades de crédito mais vantajosas se tornam ferramentas cruciais para evitar o superendividamento, afirma a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), representante das fintechs de crédito.

"O cartão de crédito, muitas vezes eleito pelos consumidores pela relativa facilidade de acesso, tem se mostrado uma escolha pouco vantajosa. Recentemente, o Banco Central divulgou a elevação média de 11,4 p.p. na taxa das operações de cartão de crédito rotativo, o que resultou em mais de 400% ao ano e posicionou a modalidade como a linha mais cara do mercado. De outro lado, modalidades com garantia e, consequentemente, mais baratas se consolidam como opções mais interessantes para os tomadores", analisa Claudia Amira, diretora-executiva da ABCD.

"Os empréstimos consignados, que oferecem colaterais de execução mais simples e, por isso, mais eficientes, destacam-se por reduzir o risco das operações, permitindo assim taxas de juros mais competitivas e possível redução da inadimplência", pontua a executiva, que ressalta o avanço da incorporação de garantias pelo mercado de crédito digital.

De acordo com a Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2025, estudo da ABCD e da PwC Brasil que analisou a operação de 44 fintechs em 2024, 77% das empresas analisadas aceitavam garantias em suas operações, em comparação com 70% no ano anterior. Desde 2021, quando apenas 34% das empresas adotavam garantias, o crescimento tem sido consistente.

"Em um contexto de juros elevados e maior seletividade na concessão, a utilização de garantias é um elemento crucial para equilibrar risco e retorno, trazendo estabilidade às carteiras de crédito das instituições que oferecem crédito", completa Claudia.

Na avaliação da diretora-executiva da ABCD, duas iniciativas em andamento podem ajudar a trazer alívio aos brasileiros endividados nos próximos meses: a nova versão do Desenrola, programa do governo federal para a renegociação de dívidas, e os mecanismos extras para liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).