por Carlos Eduardo Oliveira
Convidada da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a cineasta coreana Jeong Ji-hye veio ao Brasil (pela primeira vez) apresentar seu segundo longa-metragem, Lua Cheia, inédito ainda no circuito comercial de seu país, e com previsão de estreia por aqui em 2027. Na trama, uma jovem que sonha em integrar um grupo de k-pop com as amigas de colégio, rompe traumaticamente com as colegas. Enquanto interioriza o sofrimento, tem que também esconder o fato de que seus pais são autistas. Um filme sensível, tocante, de olhar singelo sobre a juventude atual do país.
Simpática, em conversa exclusiva com o portal VIDA MODERNA, a diretora falou também sobre o hallyu, a política de estado coreana em apoiar e divulgar maciçamente sua cultura, projeto que impulsionou mundialmente não só a explosão do universo dos k-dramas no streaming, mas também, sem exageros, o Oscar do longa Parasita, em 2019. E, claro, o hoje onipresente k-pop.
Ano passado, durante o Festival de Cinema Coreano que acontece anualmente em São Paulo, o diretor Yook Sang-hyo, do filme Nossa Estação, mencionou fatores determinantes para o sucesso recente do audiovisual coreano: o hallyu, e o fato de profissionais coreanos terem ido estudar nos EUA. Você é parte dessa geração?
Na verdade, sou parte de uma geração mais atual, que vem enfrentando empecilhos para filmar. No momento, estamos lutando para ressuscitar o cinema coreano. Por isso me defino como uma cineasta local, e exploro muito os lugares e coisas que conheço. Talvez por isso, esse meu filme tenha alcançado as pessoas. Foco muito no que vivi e experimentei, na realidade local. Minha obra talvez possa ser entendida assim.
E quais seriam esses empecilhos?
Um certo aspecto politico, muitos filmes coreanos atuais estão explorando muito essa vertente de temas políticos. E também, uma onda recente de que as pessoas não estão mais indo aos cinemas. Está sendo desafiador, pensar em formas de atrair mais público ao cinema no cenário local.
Como foi trabalhar com um elenco tão jovem em Lua Cheia?
Essa era de fato uma preocupação minha. Para muitos, era a primeira experiência em atuação. Então, fui cuidadosa, com medo de que minhas palavras soassem como respostas para os seus personagens. Não queria limitá-los, colocá-los numa caixa. Por outro lado, foi muito bom, mesmo com essa minha preocupação, todos nós nos divertimos muito. E no fim, deu tudo certo.
Além de dirigir e escrever o roteiro, você escreveu também os diálogos, ou deixou o elenco à vontade para criar?
Havia alguns diálogos já previstos no roteiro, mas em vários momentos, o que vemos são falas espontâneas. Há uma cena de uma conversa por trás da parede da casa, e essa conversa era real, algo que estava acontecendo entre nós, da produção. Conforme as gravações transcorriam, os atores foram se aproximando, criando intimidade, e vários diálogos deles acabaram sendo espontâneos.
A julgar pelo trailer disponível no YouTube, seu longa anterior, Jeong Sun, era sobre relações sociais complicadas?
O roteiro era sobre a vida da personagem do titulo. Fala sobre assedio sexual na internet, de como ela esteve nessa situação, viveu essa situação, para depois se recuperar e seguir com a sua vida após o trauma.
Jeong Sun foi premiado no festival da cidade de Jeonju. Qual a diferença entre ele e o Busan Film Festival, o maior da Coreia do Sul?
O de Busan é muito maior, uma escala colossal, muito grande, classificado como festival de cinema classe A. O festival de Jeonju é menor, e foca essencialmente no cinema coreano. A grande diferença é que, além dos filmes, a produção oferece umas comidas muito gostosas (risos).
Qual a natureza do olhar muito terno que você lança sobre as personagens femininas da trama?
Por ser mulher, acho que consigo enxergar melhor, lidar melhor com personagens femininos. Uma das coisas que mais me inspirou a fazer Lua Cheia é exatamente o que apareceu no filme: a relação entre mãe e filha. É um tipo de relação que me inspira muito.
Qual sua avaliação da política coreana do hallyu?
Tenho uma visão positiva. Consigo sentir seu impacto em praticamente todas as manifestações culturais da Coreia, atualmente. Sem contar que tem aumentado muito o número de turistas, cada vez mais gente quer conhecer nosso país.
Pergunta clichê: gosta de k-pop?
Adoro. Amo k-pop (risos).
Em São Paulo há muitos restaurantes coreanos. Qual sua comida favorita?
Ramyeon (miojo). Pra mim, é comida da alma (risos).






















