por João Cordeiro*
Em São Paulo, uma ponte metálica flutuante liga o Parque Bruno Covas à Ciclovia da Marginal Pinheiros. Para atravessá-la, há uma regra simples: todos os ciclistas devem desmontar da bicicleta e seguir empurrando-a.
A grande maioria obedece. Alguns não.
Certa vez, vi um ciclista atravessar pedalando, ignorando os apitos e as advertências dos fiscais. Quando foi novamente orientado a desmontar, discutiu com um deles e apresentou um argumento curioso: suas sapatilhas eram caras demais para serem usadas ao caminhar sobre a ponte.
Por coincidência, eu conhecia aquele ciclista. Sabia que trabalhava em uma grande multinacional e que, como tantos executivos, havia assinado políticas de compliance, participado de treinamentos e aprendido quais comportamentos eram esperados na organização.
E fiquei com uma pergunta:
Como alguém pode ser compliant dentro da empresa e deixar de sê-lo quando sai dela?
Talvez a resposta esteja na diferença entre comportamento, competência e virtude.
Comportamento é aquilo que fazemos em determinada circunstância. Podemos agir corretamente hoje e fazer o contrário amanhã. Um bom comportamento, isoladamente, ainda não nos define.
Competência representa outro estágio. É quando aprendemos a agir de determinada maneira de forma consistente em um contexto. Conhecemos as regras, dominamos os procedimentos, compreendemos os limites e sabemos o que deve ser feito.
As empresas são muito boas em desenvolver competências.
Criam códigos de conduta, políticas, treinamentos, processos, auditorias, controles e canais de denúncia. Tudo isso é absolutamente necessário.
Mas não é suficiente.
Existe um terceiro estágio: a virtude moral.
A virtude aparece quando determinado comportamento deixa de depender exclusivamente do ambiente e passa a fazer parte de quem somos.
A pessoa honesta não é honesta apenas diante de câmeras ou durante uma auditoria.
A pessoa justa não pratica justiça somente na frente de outros.
A pessoa responsável não se torna responsável quando passa pela catraca da empresa e deixa de sê-lo quando chega à rua.
E é exatamente aqui que surge um dos limites do compliance.
Nenhuma política consegue prever todas as situações. Nenhum código de conduta abrange todas as escolhas. Nenhuma auditoria acompanha cada decisão tomada por milhares de pessoas todos os dias.
Em algum momento, toda organização precisa confiar no caráter de seus profissionais.
Quando alguém omite uma informação inconveniente. Quando relativiza um conflito de interesses. Quando aceita uma pequena vantagem. Quando se silencia diante de algo errado. Quando flexibiliza um princípio porque há uma meta importante a ser alcançada.
É relativamente fácil ser ético quando a ética e o interesse apontam na mesma direção.
O teste começa quando fazer a coisa certa custa algo. Isso exige uma força denominada Força do Caráter.
É nesse ponto que a accountability deixa de ser apenas uma competência profissional e assume a dimensão de uma virtude moral.
Accountability, como a entendo, é a consciência de dono moral que leva o indivíduo a refletir sobre as consequências de seus atos. Ela transforma as pessoas, tornando-as capazes de assumir responsabilidades maiores e de entregar resultados extraordinários para si mesmas e para os outros.
Talvez possamos pensar nela como uma espécie de cola entre o indivíduo e o coletivo.
Ela conecta a minha liberdade de escolha à responsabilidade pelo impacto que ela gera sobre outras pessoas.
Por isso, neste Dia do Profissional de Compliance, talvez devamos ampliar um pouco o reconhecimento a esses profissionais.
Seu papel não é simplesmente garantir que as pessoas cumpram as regras.
Também não deveria ser o de funcionar como uma espécie de polícia interna da organização.
Seu trabalho mais nobre é contribuir para a construção de um ambiente no qual agir corretamente deixe, pouco a pouco, de depender apenas de fiscalização, punição ou controle.
E, principalmente, em situações em que ninguém está olhando. Situações em que há apenas você e a sua consciência.
*João Cordeiro é psicólogo, pós-graduado em Marketing pela ESPM e especializado em Gestão de Empresas pela FGV e escritor.























