O envelhecimento da população brasileira já altera a composição da força de trabalho, mas a estratégia da maioria das empresas não acompanha essa mudança. Essa é a conclusão de duas pesquisas inéditas conduzidas pela Rhopen, consultoria especializada em Recursos Humanos e Departamento Pessoal, em parceria com a Maturi, organização pioneira em diversidade etária no Brasil.
Um estudo ouviu 439 profissionais 50+, enquanto o outro consultou 114 lideranças de RH de diferentes regiões e setores do país. Os resultados indicam que a longevidade profissional cresce, enquanto as políticas corporativas seguem incipientes.
Os dados revelam um desalinhamento entre o perfil demográfico da população brasileira e as práticas de RH. Entre as lideranças, 84% afirmam que suas organizações não possuem políticas formais de diversidade etária, e 94% não estabelecem metas de inclusão.
Além disso, 12% das empresas sequer monitoram o percentual de profissionais 50+ no quadro funcional. Do lado dos trabalhadores, mais da metade (57%) relata já ter sofrido discriminação por idade em processos seletivos.

“Com menos jovens ingressando no mercado e carreiras mais longas se tornando regra, ignorar o público 50+ reduz o universo disponível de talentos e pode pressionar custos de recrutamento e retenção”, avalia Kátia Vasconcelos, pesquisadora em Transformações do Trabalho e diretora de P&D na Rhopen. “O envelhecimento da força de trabalho é um movimento estrutural. Se a empresa não mede, não define metas e não estrutura políticas, ela está deixando o tema fora da agenda de governança. Isso afeta negativamente o planejamento de sucessão, retenção de conhecimento e competitividade”, acrescenta.
Mais da metade das lideranças afirma que profissionais acima dos 50 anos representam até 10% do quadro funcional, e parte não sabe informar o percentual. A ausência de monitoramento formal indica que o tema está fora dos mecanismos de gestão.
A inexistência de programas de preparação para aposentadoria, realidade para 89% das empresas ouvidas, amplia o risco de perda de capital intelectual. Sem planejamento estruturado, organizações correm o risco de perder experiência acumulada sem estratégia de retenção ou transferência desse conhecimento.
Entre os profissionais 50+, o desejo de permanência no mercado é predominante, seja por necessidade financeira, seja por propósito. Ao mesmo tempo, um quinto dos entrevistados afirma já ter omitido a idade para ampliar as chances de contratação. A combinação entre longevidade crescente e barreiras de acesso sinaliza uma pressão sobre o mercado de trabalho.
A pesquisa também aponta interesse ativo em atualização digital e aprendizado contínuo por parte dos profissionais maduros, o que contraria estereótipos de baixa adaptabilidade. Ainda assim, poucas empresas estruturam programas específicos para diferentes fases da vida profissional, o que pode resultar em subutilização de capital humano experiente.
Para Andrea Tenuta, Head de Novos Negócios da Maturi, o fato de profissionais esconderem a idade evidencia a existência de barreiras implícitas no mercado. “Quando um candidato sente que precisa omitir a própria idade para ser avaliado pelas suas competências, isso mostra que o etarismo ainda influencia os processos de seleção. O desafio das empresas é ampliar o olhar para o potencial e a experiência desses profissionais”, afirma.
Realidade nacional acompanha tendência global
As pesquisas online foram conduzidas entre julho e novembro de 2025. As amostras contemplaram participantes de todas as regiões do país, sendo do Sudeste 81% dos profissionais 50+ e 74% das lideranças.
Entre os trabalhadores experientes, predomina a atuação no setor de Serviços, seguido por Indústria e Comércio; 63% possuem MBA ou especialização e 18% ensino superior completo. Já entre lideranças e RHs, a maioria ocupa posições estratégicas no setor privado.
Em termos de porte, destaca-se a presença de organizações de maior estrutura: um terço registra receita operacional bruta superior a R$ 300 milhões, enquanto 26% faturam entre R$ 4,8 milhões e R$ 90 milhões.
Quanto ao quadro de pessoal, 28% empregam de 100 a 500 profissionais, e quase um quinto reúne entre 1.001 e 3.000 colaboradores, evidenciando a participação relevante de empresas de médio e grande porte na amostra.
O contexto é demográfico
Dados do IBGE mostram que a taxa de fecundidade no Brasil caiu para 1,55 filho por mulher em 2022, enquanto a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em 12 anos. Projeções da Organização das Nações Unidas indicam que, ao longo do século XXI, o único grupo etário que continuará crescendo de forma consistente será o de pessoas com 60 anos ou mais.
“O envelhecimento deixa de ser uma tendência social e passa a moldar a dinâmica do mercado de trabalho. A capacidade de incorporar essa transformação à estratégia corporativa tende a determinar vantagem competitiva nos próximos anos”, conclui Kátia.
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